Quase não andava, saltitava com passinhos curtos com medo da própria sombra. Bigodinho fino exposto num lábio que parecia estar sempre a esconder-se, óculos redondos com aros de tartaruga, lentes grossíssimas tapando os olhos, tristes subentende-se. Corpo magro, esguio e furtivo, o Malaquias, circulava por entre os escombros das almas perdidas guardando-lhes os segredos que não eram secretos.
Segredo/Secreto? Substantivo e adjectivo, que de tão semelhantes conseguem ser, mesmo, quase opostos. Explico melhor: o Malaquias tinha um dom que era saber escutar com uma enorme paciência não interferindo nunca nos desabafos alheios, e isto, claro, valeu-lhe uma valente reputação junto de quem, secretamente, sofria as agruras de se situar entre os Outros e o Cosmos, coisa medonha de se enfrentar e em cujo resultado se constrói a persona, sim, a máscara que, passo a passo, edificamos para parecermos o que não somos ou como diria um aprendiz de S. Freud - ter uma personalidade. Se as ditas agruras fossem segredos, as pobres almas nunca os comunicariam, e se o fazem, então, ó semântica, querer-se-ão secretos?
Vejamos o que o Dicionário Digital Priberam da Língua Portuguesa nos diz:
Segredo (Latim secretum) - substantivo masculino; começa por coisa que não deve ser sabida por ninguém e logo a seguir expande-se dizendo que é coisa que se diz a outrem mas que não deve ser sabida por terceiros, mau, em que ficamos? Depois mais uns quantos significados, tais como, reserva, descrição, meio pouco conhecido de se fazer uma coisa, lugar da prisão onde se conservam os presos que devem estar incomunicáveis, esconderijo, conjunto de causas desconhecidas e finalizando com íntimo e âmago.





















